na FLIP - Festa Literária Internacional de Paraty
que acontece de 22 a 26 de julho de 2026
na cidade de Paraty no Rio de Janeiro
O espaço da arte do Zé Salvador
José Washington de Souza, o mestre do
cordel Zé Salvador
Nascido na cidade Tianguá, no Ceará,
hoje nos brinda com sua ilustre presença na região metropolitana aqui do Estado
do Rio de Janeiro.
Na infância,
brincava de subir em árvores e ele mesmo fazia seus brinquedos: piões e
papagaios (ou pipa, como a conhecemos pelos lados de cá). Também frequentava
feiras, onde os cordelistas cearenses levavam suas maletas, espalhavam seus
folhetos em meio às mercadorias e os declamavam para a alegria da garotada.
Aprendeu a ler e
escrever em casa com a mãe (que além de cuidar do lar, compunha a renda
familiar costurando e vendendo bolos). E usava cordéis para fixar na memória a
teoria da língua portuguesa, como se fossem exercícios lúdicos. Apenas
ingressou no sistema de ensino formal aos onze anos.
Aos dezoito,
partiu em busca de um panorama mais agitado e foi morar em Fortaleza, capital
de seu Estado, onde estudou parte do curso de contabilidade.
Em fevereiro de
1977 veio visitar uma irmã aqui no Rio de Janeiro. Nessa época, estudava e
trabalhava no comércio, lá no Ceará.
Segundo o
próprio: “vim pra cá pra passear, mas acabei gastando o dinheiro da minha
passagem de volta e tive que arrumar um trabalho para conseguir comprar essa
passagem.
Continuo tentando comprar até hoje”. Até
mesmo contando “causos”, tudo nele é poesia.
Em 1981 conheceu
a mulher com quem vive até hoje e teve filhos, cujos nomes prestigiam Gandhi e
“As Brumas de Avalon”. Para dar o melhor para a sua família, acabou protelando
a conclusão dos estudos e é autodidata em tudo que faz e produz, o que para mim
evidencia ainda mais o seu brilhantismo altruísta.
Desde cedo
escrevia, e um dia, ao mostrar um de seus textos no liceu onde estudou, ainda
no Ceará, disseram a ele que o escrito era um poema. Desde então ele se
reconhece como poeta.
Durante a
ditadura, foi convidado para escrever para um periódico local em Tianguá. Seu
poema “Conversando com a Brisa”, no entanto, não viu a luz do dia, por ter sido
considerado subversivo para aquela época. Censurado.
Já no Rio de
Janeiro, continuou a escrever sem parar, apesar de ter passado anos a fio sem
pretensões literárias, talvez em razão desse trauma da censura.
Das suas idas à
Feira de São Cristóvão surgia um apreço cada vez maior pela literatura de
cordel que conhecera no Ceará, muito embora nessa época o Zé Salvador ainda
escrevesse poemas livres.
No ano 2000 foi primeiro
lugar num concurso literário nacional, com o poema “Séculos”. Foi o que faltava
para ele abrir sua gaveta de pérolas poéticas. Graças a Deus.
Ato contínuo,
participou de trinta e cinco antologias com a editora que o havia premiado, e
depois de mais outras cerca de vinte obras em coautoria, para instituições
públicas e privadas.
Sua estreia
oficial no mundo do cordel foi em 2006, quando escreveu “Pinochet e a Tentativa
de Tomar o Inferno”, por ocasião da morte do ditador chileno. Nessa obra, pegou
emprestado o “Inferno de Dante” e nesse cenário fez com que o ditador fosse
realmente punido, já que ele havia escapado das devidas reprimendas em vida.
Continuou no
ofício do cordel, mas de novo sem publicar. Isso mudou drasticamente em 2014,
ano em que se aposentou.
Sabem como
funciona a assim chamada “aposentadoria produtiva”, né? Então. Mais pra frente
eu conto.
Conseguiu
notoriedade com o cordel “Brincanagens”, inspirado em confraternizações com
seus antigos colegas de trabalho. E a essa altura já escrevia poemas com
métrica e rima, tendo dominado sozinho esse leão arredio da poesia regrada. Na
jaula do leão, compôs vários cordéis e sonetos. Difícil, eu bem sei.
Mas o melhor vem
a seguir, quando Zé Salvador se rendeu ao “Orkut”, lá nos primórdios das redes
sociais como as conhecemos hoje. Nas comunidades literárias dessa rede, fez
intercâmbio com diversas figuras que o ajudaram a trazer sua técnica à
perfeição.
Pois bem.
Lembram que eu mencionei que sua aposentadoria foi (ou melhor dizendo: tem
sido) produtiva? Justamente nessa época publicou um livro de sonetos, ao qual
deu o título de “Vai um Soneto aí com Zé Salvador?”, proporcionando aos seus
leitores sonetos decassílabos heroicos.
Esse livro não contou com a máquina editorial,
no entanto. Foi sendo vendido no boca a boca mesmo, em uma aula de militância
poética que nos deu o mestre Zé.
Junto com o
livro, foi fazendo cordel assiduamente, num fluxo incessante entre produção e
publicação, que perdura até hoje. Inclusive, ele já tem sessenta cordéis
publicados, “mais um tanto que estão terminados aqui em minha mesa esperando a
oportunidade de publicar”. Aspas dele.
Em 2019 foi
primeiro lugar, com o cordel “Mochila que Guarda Medos”, em concurso promovido
pela Biblioteca Anita Porto Martins. E nessa altura já transformava crônicas em
cordel, o que prova de forma incontestável sua fluidez literária. Esse trabalho
itinerou voluntariamente por escolas no Rio de Janeiro, no formato de “oficinas
de cordel” por ele ministradas, fazendo do mestre Zé uma figura importante no
segmento educacional. Fascinante.
Hoje em dia, Zé
Salvador é vice-presidente da UBT (União Brasileira dos Trovadores), em razão
de suas várias trovas premiadas e seu comportamento resiliente. Guarda em sua
estante o troféu “Arte em Movimento” e se orgulha disso. Também, né? Coisa para
poucos. Poucos e bons, eu diria.
Escreve para o
portal literário “Entre Poetas e Poesias”, e também é comissionado para
escrever cordéis por encomenda.
Palavras do Zé:
“todo dia eu escrevo poesia, não tem um santo dia que eu não escreva”. Talvez
isso o tenha colocado no lugar de membro elegível da Academia Brasileira de
Cordel, onde estão vários de seus amigos. Corre a boca pequena que, com a
triste e trágica passagem de Moraes Moreira, ele ocupe a sua cadeira vitalícia
na Academia. Vamos aguardar. E torcer.
Ele mesmo,
quando perguntado sobre títulos e comendas, se diz despreocupado, por ser
“agradecido demais pelo dom de escrever”. Bem que eu disse que ele era
altruísta…
Como tem
acontecido com todos nós, sofre os impactos da pandemia, e com isso teve que
interromper os trabalhos em cordéis coletivos no Nordeste. Mas tudo isso vai
passar, e se Deus quiser ele concluirá esse lindo trabalho.
Para ele, “a
literatura de folhetos do Nordeste por um tempo foi tratada como uma literatura
menor, sendo que uns até a enxergavam como subproduto do folclore”.
Como nos ensina:
“por um longo período de estudos sistemáticos sobre a literatura de cordel, a
visão sobre esse trabalho era a de um produto coletivo, desprezando-se o
criador e dando foco apenas no objeto da criação. Essa tendência se confirmou
nas pesquisas de Silvio Romero, Leonardo Mota e Gustavo Barroso, quando foi
Romero quem primeiramente usou no Brasil o verbete cordel. O pai do cordel
brasileiro, Leandro Gomes de Barros, por outro lado, foi um dos caras que mais
divulgou o cordel de folhetos no país.
De qualquer forma, o cordel para mim é
algo que valorizo muito, principalmente quando ele está dentro da métrica.
Porque o cordel, composto de 8 a 16 páginas, tem que ter a base, o tripé da
métrica (com as sete sílabas tônicas ou poéticas) , da rima e da oração.
Se não tiver esses três elementos, o
texto não é um cordel. Mas existem vários tipos de cordel por aí, como o
“martelo agalopado”, “martelo alagoano”, “peleja”, “galope à beira-mar”,
“oitavão rebatido”. Por isso, se não for regrado, não vale. No Nordeste, onde
os cordelistas são bem mais rigorosos, se você for falar de “cordel de pé
quebrado”, podem até fazer chacota de você.
E o “repente”? É cordel? Bem, ele é um
primo do cordel, porque cordel vem de cordelista de bancada, enquanto o
“cantador” vem com a viola ou pandeiro, sempre com um apoiador. Tem “cantador”
que canta a obra de outros, e o “repentista” que cria ali na hora.”
Celebrado por
grandes nomes da pesquisa de cordel como Elis Regina Barbosa Angelo e Sylvia
Regina Bastos Nemer, continua usando o seu chapéu com esse sorrisão franco que
podemos ver na foto.
Mas Edu, conta
pra gente! O que será que o Zé Salvador deseja despertar no leitor? Vou deixar
pra ele mesmo responder: “eu gostaria de despertar o prazer na leitura, pra que
ele fique preso à leitura e goste da leitura. Ou então, fazer com que ele se
sinta bem. Que tenha curiosidade pelo tema, e que eu possa passar alguma
informação com aquilo que escrevo pra ele.
Conhecimento, prazer e bem-estar”. E nós
temos, mestre Zé. Bem-estar é o que não nos falta ao lermos o seu legado!
Salve, mestre Zé Salvador!
Contato
Instagram: @ze.z.salvador
Não dá pra não
seguir!
(21) 98027-4279
2715-5061
zesalvador06@gmail.com
@poetazésalvador - zesalvador-poiZé
@poetazesalvador é o perfil oficial do poeta, cordelista e escritor Zé Salvador no Instagram [PoiZé (@poetazesalvador) - Zé Salvador - Instagram].
Ele é um membro ativo da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC) e o presidente-fundador da Academia Gonçalense de Literatura de Cordel (AGLC) [A aula de poesia do Sérgio Vaz que serve pra todo mundo :)].
Através de sua conta, ele compartilha suas obras inéditas, registros de eventos culturais — como o I Congresso Brasileiro de Cordel [Registros do presidente da AGLC, @poetazesalvador, no I ...] — e debates sobre acessibilidade, literatura e meio ambiente [Photo by Zé Salvador - PoiZé (@poetazesalvador) ·
Você pode acompanhar suas atualizações e entrar em contato diretamente seguindo a página no [PoiZé (@poetazesalvador) - Zé Salvador - Instagram].
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